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O Terceiro Setor A emergência do Terceiro Setor no Brasil é um
fenômeno das últimas três décadas que, a partir da segunda metade dos anos 90,
começou a ter uma evolução rápida e consistente. Trata-se de um movimento que
está determinando uma nova experiência de democracia no quotidiano – um novo
padrão de atuação aos governos, uma nova postura da iniciativa privada e novas
formas de parceria entre a Sociedade Civil organizada, o Estado e o
Mercado.
O Terceiro Setor reúne, na verdade, entidades não
governamentais de caráter público, não lucrativas - que podem receber recursos
públicos ou investimentos da iniciativa privada. Recursos privados para fins
públicos, aliás, rompe com uma tradição inversa e perversa representada pela
apropriação privada dos recursos públicos.
Paradoxalmente o fortalecimento da
sociedade civil no Brasil se deu no bojo da resistência à ditadura militar. No
momento em que o regime autoritário bloqueava a participação dos cidadãos na
esfera pública, micro-iniciativas na base da sociedade foram inventando novos
espaços de liberdade e reivindicação. Falava-se, então, muito de Estado e pouco
de Mercado. Repressão política e dominação econômica se interpenetravam e se
reforçavam mutuamente.
Neste contexto, a solidariedade, sempre presente nas
relações interpessoais, nas redes de vizinhança e ajuda mútua, inspira a ação de
movimentos voltados para a melhoria da vida comunitária, defesa de direitos e
luta pela democracia. É deste encontro da solidariedade com a cidadania que vão
surgir e se multiplicar as organizações não-governamentais de caráter
público Nos anos 70 o fortalecimento da sociedade civil - embrião do Terceiro
Setor - se fez em oposição ao Estado autoritário. Com o avanço da
redemocratização e as eleições diretas para todos os diversos níveis de governo,
as organizações de cidadãos assumem um relacionamento mais complexo com o
Estado. Reivindicação e conflito passam a coexistir, segundo os momentos e as
circunstâncias, com diálogo e colaboração. Nos anos 90 surge a palavra parceria
enquanto expressão de um novo padrão de relacionamento entre os tres setores da
sociedade.
O Estado começa a reconhecer que as ONGs acumularam
um capital de recursos, experiências e conhecimentos sobre formas inovadoras de
enfrentamento das questões sociais que as qualificam como interlocutores e
parceiros das políticas governamentais. O Mercado, antes distante, para não
dizer indiferente às questões de interesse público, começa a ser penetrado pela
noção de responsabilidade social e passa a ver nas organizações sem fins
lucrativos canais para concretizar o investimento do setor privado empresarial
na área social, ambiental e cultural.
O próprio conceito de Terceiro Setor começa a se
ampliar para além do círculo das ONGs, valorizando outros atores e serviços como
a filantropia empresarial, as associações beneficentes e recreativas, as
iniciativas das igrejas e o trabalho voluntário. A afirmação deste novo
perfil participante e responsável da sociedade brasileira se traduz na busca de
novas formas de articulação entre organizações do Terceiro Setor, órgãos
governamentais e empresas.
A colaboração trans-setorial assume os contornos de
um desenho de geometria variável. Através da experimentação de ações em
parceria, Governo e sociedade começam a aprender a pensar e agir juntos,
identificando o que cada um faz melhor e somando esforços em prol de objetivos
de interesse comum.
Identificam-se pautas de ação consensual sem prejuízo
da persistência necessária e fecunda de conflitos e tensões. A ampliação das
áreas de convergência não implica no apagamento das diferenças entre os setores.
Pelo contrário, por serem diferentes é que podem canalizar recursos e
competências específicas e complementares.
Valorizar a co-responsabilidade dos cidadãos não
significa tampouco eximir o o Governo de suas responsabilidades. Significa, isto
sim, reconhecer que a parceria com a sociedade é que permite ampliar a
mobilização de recursos para iniciativas de interesse público. No mundo
contemporâneo, a democracia como exercício quotidiano não é mais possível sem a
presença e ação fiscalizadora dos cidadãos. O papel de uma sociedade informada e
atuante não é o de esperar tudo do Estado. Cuidar junto aparece, cada vez mais,
como alternativa eficiente e democrática.
O fortalecimento de um Terceiro Setor no Brasil não
se compreende com um olhar restrito à esfera nacional.
Na última década, os principais problemas que afetam
a comunidade internacional - destruição do meio ambiente, explosão populacional,
narcotráfico, proliferação de doenças, instabilidade dos mercados financeiros,
aumento da pobreza e desemprego - passaram a ser percebidos como questões
globais. Ou seja, vão além das fronteiras e excedem os recursos de que dispõem
os Estados nacionais. Pela primeira vez organizações de cidadãos desempenham
papel decisivo na definição de uma nova agenda internacional na qual democracia
e direitos humanos, respeito ao meio ambiente, igualdade de gênero, luta contra
a pobreza e a exclusão social passam a ser reconhecidos como questões do
interesse de toda a humanidade.
A exemplo do que se passa no interior de cada país, o
crescente protagonismo e influência dos cidadãos nos debates sobre a nova ordem
mundial, antes privilégio dos Estados e empresas multinacionais, configura o
surgimento de uma esfera pública internacional.
A cultura da solidariedade e da cidadania é uma
construção recente e ainda frágil. Há setores do Estado que temem a participação
da sociedade como uma intromissão indevida em suas áreas reservadas de
competência. Há também setores da sociedade que percebem a interação com o
Estado sobretudo como um risco de manipulação e cooptação.
Resistências, preconceitos e desconfiança mútua
estão, no entanto, sendo superados na medida em que ações em parceria se
generalizam, sobretudo a nível local.
Este novo padrão de relacionamento entre Sociedade
Civil, Estado e Mercado está sendo testado em experiências inovadoras, como a do
Movimento Viva Rio no Rio de Janeiro, de mobilização de atores públicos e
privados para o enfrentamento de questões definidas consensualmente como de
inequívoco interesse público.
O fortalecimento do Terceiro Setor implica, por sua
vez, na construção de respostas a quatro grandes desafios que estão hoje
colocados à expansão e qualificação de suas atividades:
• produzir e disseminar informações sobre o que é e o
que faz o Terceiro Setor; • melhorar a qualidade e eficiência da gestão de
organizações e programas sociais; • aumentar a base de recursos e a
sustentabilidade das organizações da sociedade civil de caráter público; •
criar condições para o aumento da participação voluntária dos cidadãos.
(Fonte: RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor)
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